Foi amplamente noticiado que a Voyager 1 conseguiu sair do Sistema Solar. Há mais de 20 anos que ela não consegue tirar nenhuma foto e a sua memória é apenas um pouco maior do que a de uma calculadora. Que importância ela ainda tem?
A sonda Voyager I foi lançada a 5 de setembro de 1977. Passou pelos planetas Júpiter (1979) e Saturno (1980). Em 1990 a cerca de 40 UA de distância (aproximadamente a distância média de Plutão ao Sol) a Voyager I tirou uma foto da Terra e dos outros planetas. É
a foto mais distante que temos da nossa casa. A partir deste ponto a câmera fotográfica da nave foi desativada (dado que a nave não passaria perto de nenhum objeto significativamente grande para que se justifique tirar fotos) e toda a energia restante foi canalizada para os outros instrumentos da nave (diversos detetores, sistemas de comunicação e navegação).
A heliosfera é uma vasta região em forma de bolha que rodeia o Sistema Solar e que se estende muito para além da órbita de Plutão. Esta bolha é mantida do lado de dentro pela pressão do
vento solar e do lado de fora pela pressão do
meio interestelar (ver figura). O vento solar afasta-se do Sol em todas as direções a uma velocidade supersónica (i.e., superior à velocidade do som). Devido
à interação com o meio interestelar existe um ponto da heliosfera a partir do qual a velocidade do vento solar passa a ser subsónica. Esta região, designada na figura
abaixo por termination shock, foi atravessada pela Voyager I em
dezembro de 2004 quando esta se encontrava a cerca de 80 UA do Sol.

Artist concept of NASA's Voyager spacecraft. Image credit: NASA/JPL-Caltech [http://voyager.jpl.nasa.gov/news/transitional_regions.html]
Segue-se uma região de transição designada por heliosheath onde a velocidade do vento solar continua a diminuir. Para além disso as partículas
do vento solar são comprimidas e gera-se alguma turbulência. A fronteira exterior desta região (e também da heliosfera) designa-se por
heliopausa. Neste ponto a pressão do vento solar já não é suficiente para empurrar para fora o meio interestelar. A Voyager I atravessou esta região em
agosto de 2012 quando estava a 121 UA do Sol. A Voyager terá energia provavelmente até ao ano de 2025
pelo que até lá continuará a enviar dados preciosos para a Terra (valor do campo magnético, densidade de partículas, etc).
Neste momento a Voyager I está já a 128 UA. Embora navegue já no meio interestelar não será muito correto dizer que já saiu do Sistema Solar. Se considerarmos que o Sistema Solar consiste em tudo o que gira em torno do Sol temos ainda pela frente a
Nuvem de Oort. Trata-se de uma região mais ou menos esférica em torno do Sol composta pelos restos da nebulosa que deu origem ao Sistema Solar. É desta região que são originários os cometas de longa duração. A Voyager entrará nesta região (situada entre 40000 a 50000 UA do Sol) daqui por cerca de 15 000 anos. O próximo objeto do qual a Voyager I se aproximará será a estrela anã vermelha
Gliese 445 (também designada por AC+79 3888). Esta estrela embora esteja atualmente a cerca de 17 anos-luz do Sol está em aproximação pelo que daqui por cerca de 40000 anos estará a "apenas" 3.5 anos-luz do Sol sendo uma das nossas vizinhas mais próximas. Será nessa altura que a Voyager passará "perto" (a 1.6 anos luz de distância) desta estrela.

NASA/JPL-Caltech [http://photojournal.jpl.nasa.gov/catalog/PIA17046].
Note-se que a escala representada nesta figura é logarítmica. A distância da
Terra ao Sol é igual a 1UA e por, exemplo, a distância de Saturno ao Sol são
aprox. 10UA, ou seja, numa escala linear o Saturno deveria estar 10 vezes mais
longo do Sol do que a Terra. O mesmo raciocino se aplica aos restantes valores.
De notar também que embora as estrelas alpha-Centauri e AC+79 38888 estejam
alinhadas sobre a mesma linha o que se pretende representar na figura é apenas a
distância das mesmas ao Sol e não a sua localização num espaço 3D.
Os computadores de bordo das sondas Voyager, projetados nos anos 70 do século XX, continuam operacionais ao fim de todos estes anos. Uma vez lançadas as naves não era possível aceder às mesmas para aumentar a memória, trocar de processador ou mesmo de computador (como é recorrente fazermos aqui na Terra!). No entanto
é notável que utilizando esse equipamento obtiveram-se algumas das mais fantásticas imagens
e fizeram-se algumas das mais marcantes descobertas no Sistema Solar!
Para mais informações sobre as sondas Voyager:
http://voyager.jpl.nasa.gov/index.html
http://voyager.jpl.nasa.gov/mission/timeline.html
http://voyager.jpl.nasa.gov/where/index.html