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AS TARTARUGAS MARINHAS NO ATLÂNTICO NORTE |
Ocorrem cinco espécies de tartarugas marinhas em águas portuguesas. Mais raras em Portugal Continental, onde somente no Algarve se tem a hipótese de as ver regularmente, elas são abundantes nas nossas ilhas, nomeadamente na Madeira e nos Açores. No entanto, não existem registos de reprodução de tartarugas marinhas em Portugal nem em outros países europeus atlânticos. De onde vêm então estes animais? Como quase todos os répteis, as tartarugas marinhas põem ovos que são depositados em praias arenosas , portanto, na terra firme. Se estes animais se reproduzissem por cá, seguramente alguém o teria notado. Esta questão gerou em tempos alguma controvérsia e, mesmos nos nossos dias, o problema não está de todo solucionado. Em relação à tartaruga-boba, a mais frequente, as mais próximas praias utilizadas para a sua nidificação situam-se na costa atlântica de Marrocos até ao paralelo 35°N. No entanto, para as tartarugas chegarem à Madeira e aos Açores teriam de vencer fortes correntes contrárias; uma autêntica impossibilidade para os seres juvenis de poucos centímetros de comprimento. Na outra margem do Atlântico, nas Caraíbas e nas costas estadounidenses da Flórida até à Carolina do Norte, existem também praias utilizadas para a reprodução. No entanto, a grande distância que vai desses lugares às nossas ilhas parece excluir essa hipótese logo à partida. Mas não..., é isso mesmo que acontece ! Diz-nos uma tartaruga marcada na Flórida e recapturada nos Açores e, mais importante ainda, os dados obtidos através de novas metodologias de análise genética do ADN mitocondrial provam que as tartarugas da Flórida pertencem ao mesmo grupo genético das da Madeira e Açores. Uma terceira linha de evidências mostra que existem certos tamanhos de tartarugas que nunca são capturados nas águas estadounidenses. Esses tamanhos são, contudo, mais frequentes na Madeira e Açores. Tratam-se de animais juvenis. Portanto, nas ilhas atlânticas ocorrem quase exclusivamente tartarugas-bobas juvenis que ainda não atingiram a idade reprodutora. AS NOSSAS ILHAS SÃO O INFANTÁRIO DAS TARTARUGAS-BOBAS Fica estabelecida então a hipótese que as tartarugas-bobas nascem nas Caraíbas e costas dos Estado Unidos de onde se dirigem rápidamente para o alto mar, o chamado domínio pelágico, onde vivem associadas a algas flutuantes e outros objectos. A corrente prevalecente nessa área é a do Golfo que as leva em direcção aos Açores, não tendo de superar correntes contrárias. Da Corrente do Golfo seguem para a Corrente das Canárias. Passando pela Madeira, tocando talvez as águas das Canárias, são impelidas pela agora denominada Corrente Equatorial do Norte que as transporta passivamente para as águas maternas. Provávelmente fazem esta viagem mais do que uma vez, já que levam 15 a 30 anos a atingir a maturidade sexual. Findo esse período juvenil ficam na área onde nasceram, alimentando-se perto das costas americanas e reproduzindo-se cada dois a três anos. As tartarugas-bobas de todo o Atlântico Norte poderiam pois ser consideradas uma grande população, com uma área de crescimento conjunto que é o mar aberto, só interrompido pelas ilhas Atlânticas portuguesas e tangido pelas Bermudas e Canárias. As nossas ilhas são o infantário destes animais. A tartaruga mais comum nas águas portuguesas é a tartaruga-boba ou -comum, Caretta caretta. No entanto é possível aparecerem outras espécies, o registo das quais se revistiria da maior importância. Para sua identificação adaptámos a seguinte pequena chave. Avistamentos, arrojamentos e capturas acidentais deveriam ser comunicados ao autor, com data, localidade, espécie, estado da tartaruga e outra informação relevante. Importante seria ainda a medição do comprimento da carapaça em milímetros, que se mede com uma simples fita métrica de acordo com a figura X, seguindo a curvatura da carapaça no seu ponto mais comprido desde a nuca até à ponta mais distante da margem posterior De mencionar ainda que, sob pena de coima, toda as tartarugas marinhas têm de ser libertadas imediatamente no seu ambiente natural ou entregues às autoridades competentes, pois trata-se de espécies protegidas por lei. As tartarugas marinhas são animais de sol, embora aquáticos. Gostam do mar calmo e liso sob as radiações fortes do astro-rei. Nestas condições, durante o fim da manhã e o princípio da tarde vêm à superfície para encher de ar os pulmões. Enchem-nos tanto que a carapaça fica completamente fora de água como um pedregulho na superfície espelhada, descançando adormecidas e esquecidas do tempo. Aproximamo-nos com o barco por trás. Basta o animal sentir a nossa presença para mergulhar e nunca mais ser visto. No entanto, este animal não se mexe e deixa que o barco com o ruidoso motor se aproxime até alguns centímetros. Junho chegou e só agora conseguimos sair para o mar. Renato Barradas, técnico de biologia, agarra no camaroeiro e passa a rede por baixo da tartaruga, evitando a fuga e puxando-a para junto da borda do semi-rígido sem a levantar da água. Eu agarro no animal e iço-o para dentro do barco. É pesada e grande; arfa como um velho. As suas barbatanas dianteiras remam inútilmente no ar. Na água são excelentes orgãos de propulsão. As barbatanas traseiras com as suas unhas agudas raspam a minha mão que a segura pela carapaça. Está coberta de algas vermelhas na parte traseira da carapaça , que por sua vez servem de habitat a inúmeros animaizinhos transparentes. São crustáceos da familia dos caprelídeos com um máximo de 9mm de comprimento. Na barbatana cresce um molhinho de perceves. Voltámos o bicho. A parte inferior da carapaça denomina-se científicamente de plastron. Também aqui crescem animais associados. São cracas que vivem meio embutidas no plastron e carapaça. Esta espécie vive exclusivamente sobre tartarugas marinhas. Mas o que mais nos surpreendeu foi a presença de dois carangejos que encontrámos sobre a cauda, protegidos nessa bolsa de pele e alcochoados com a gordura da tartaruga. Trata-se do carangejo de Colombo, Planes minutus. Assim mesmo, minutus porque é diminuto, não passando dos 3 centímetros. Vive quase exclusivamente sobre tartarugas marinhas e outros objectos flutuantes, sempre no mar aberto e nunca perto da costa. Diz a lenda que Colombo convençeu os seu marinheiros rebeldes de que estavam prestes a atingir terra depois de encontrar um tronco a flutuar com estes bichos. Temos que medir a tartaruga e pesá-la. É um trabalho difícil no espaço restrito do semirígido, cujo interior está completamente ocupado pela consola de condução, por nós, e pela tartaruga. E hoje temos sorte, está um mar de "senhoras", completamente chão. Quando está mexido, este trabalho em posição agachada leva necessáriamente ao enjoo. Por fim, marcámos o animal. As marcas em aço inox que colocámos levam ao reconhecimento deste indivíduo se alguma vez voltar a ser capturado, qualquer que seja o local do mundo em que estiver. As medições que fizemos, permitem, em caso de recaptura, determinar o crescimento. Para o efeito, utilizamos duas marcas; uma em cada barbatana para remediar a eventual e relativamente comum perda de uma das marcas. Assim, temos a certeza que esta tartaruga será posteriormente reconhecida. POUCAS MAS ANTIGAS As tartarugas em geral e as marinhas em especial formam um grupo antigo. Apareceram milhões de anos antes dos primeiros seres humanos pisarem a terra. Hoje, a nível mundial existem oito espécies. Nas águas portuguesas ocorrem cinco . A tartaruga-boba, Caretta caretta, é de longe a mais comum. Seguem-se outras bem mais raras: a tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, o gigante entre as tartarugas e a maior espécie existente, a tartaruga-de-Kemp, Lepidochelys kempii, que nidifica quase só numa praia do mundo e cuja população baixou para uns 300 casais apenas, sendo, por isso, a espécie de tartaruga marinha mais ameaçada de extinção no mundo; a tartaruga-verde, Chelonia mydas, a vegetariana entre as tartarugas, e finalmente a tartaruga-de-escamas, Eretmochelys imbricata, muito procurada pela sua carapaça e carne e com invulgares hábitos alimentares, dado que se alimenta de esponjas marinhas. DE ONDE VÊM AS TARTARUGAS? Embora tenhamos nas nossas águas cinco espécies de tartarugas, não existem registos de reprodução de tartarugas marinhas em Portugal nem em outros países europeus atlânticos. De onde vêm então estes animais? Como quase todos os répteis, as tartarugas marinhas põem ovos que são depositados em praias arenosas , portanto, na terra firme. Se estes animais se reproduzissem por cá, seguramente alguém o teria notado. Esta questão gerou em tempos alguma controvérsia e, mesmos nos nossos dias, o problema não está de todo solucionado. Em relação à tartaruga-boba, a mais frequente, as mais próximas praias utilizadas para a sua nidificação situam-se na costa atlântica de Marrocos até ao paralelo 35°N. No entanto, para as tartarugas chegarem à Madeira e aos Açores teriam de vencer fortes correntes contrárias; uma autêntica impossibilidade para os seres juvenis de poucos centímetros de comprimento. Na outra margem do Atlântico, nas Caraíbas e nas costas estadounidenses da Flórida até à Carolina do Norte, existem também praias utilizadas para a reprodução. No entanto, a grande distância que vai desses lugares às nossas ilhas parece excluir essa hipótese logo à partida. Mas não..., é isso mesmo que acontece ! Diz-nos uma tartaruga marcada na Flórida e recapturada nos Açores e, mais importante ainda, os dados obtidos através de novas metodologias de análise genética do ADN mitocondrial provam que as tartarugas da Flórida pertencem ao mesmo grupo genético das da Madeira e Açores. Uma terceira linha de evidências mostra que existem certos tamanhos de tartarugas que nunca são capturados nas águas estadounidenses. Esses tamanhos são, contudo, mais frequentes na Madeira e Açores. Tratam-se de animais juvenis. Portanto, nas ilhas atlânticas ocorrem quase exclusivamente tartarugas-bobas juvenis que ainda não atingiram a idade reprodutora. AS NOSSAS ILHAS SÃO O INFANTÁRIO DAS TARTARUGAS-BOBAS Fica estabelecida então a hipótese que as tartarugas-bobas nascem nas Caraíbas e costas dos Estado Unidos de onde se dirigem rápidamente para o alto mar, o chamado domínio pelágico, onde vivem associadas a algas flutuantes e outros objectos. A corrente prevalecente nessa área é a do Golfo que as leva em direcção aos Açores, não tendo de superar correntes contrárias. Da Corrente do Golfo seguem para a Corrente das Canárias. Passando pela Madeira, tocando talvez as águas das Canárias, são impelidas pela agora denominada Corrente Equatorial do Norte que as transporta passivamente para as águas maternas. Provávelmente fazem esta viagem mais do que uma vez, já que levam 15 a 30 anos a atingir a maturidade sexual. Findo esse período juvenil ficam na área onde nasceram, alimentando-se perto das costas americanas e reproduzindo-se cada dois a três anos. As tartarugas-bobas de todo o Atlântico Norte poderiam pois ser consideradas uma grande população, com uma área de crescimento conjunto que é o mar aberto, só interrompido pelas ilhas Atlânticas portuguesas e tangido pelas Bermudas e Canárias. As nossas ilhas são o infantário destes animais. É NECESSÁRIO PROTEGER Todas as 8 espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo encontram-se protegidas legalmente pelos convénios de Bona e Berna e do tratado da CITES. A captura destes animais é proibida, tal como a sua manutenção em cativeiro e a comercialisação dos próprios animais ou parte deles. Porquê pois esta protecção tão rígida? As tartarugas marinhas foram e são utilizadas pelo homem como fonte alimentar, ornamentação e couro. É fácil capturar uma tartaruga quando esta vem à praia pôr os ovos. E mais de 100 ovos também alimentam uma família pobre durante muito tempo. No entanto, o resultado desta exploração é a extinção quase total das gerações seguintes. O problema agrava-se devido ao longo tempo de maturação destes animais; só 20 a 30 anos mais tarde é que se irá notar um declínio no número de tartarugas que nidificam numa dada praia. Isso aconteceu com a Tartaruga-de-Kemp de forma impressionante. Esta espécie nidifica só em poucas praias do Golfo do Mexico. Em 1947, só na praia de Rancho Nuevo, Mexico, e num único dia, foram estimadas através de um filme amador mais de quarenta mil fêmeas a nidificar. Em 1988, reduziu-se para pouco mais de trezentas durante toda a época reprodutora. Declínios igualmente alarmantes, embora não tão graves como o relatado, verificaram-se também em todas as outras espécies. Impôe-se pois entrar em acção e fazer algo! A comunidade internacional reconheceu o problema e incluiu estas espécies na legislação internacional desde há bastantes anos. Nos Estados Unidos e nalguns paises centro-americanos foram feitos esforços consideráveis com elevados custos financeiros. Assim, tenta-se por um lado a defesa das praias de nidificação da acção predatória dos humanos. E quando isso é difícil ou impossível recolhem-se os ovos dos seus ninhos naturais e incubam-se de forma semi-artificial. Os recém eclosionados podem ser soltos imediatamente ou mantidos até um ano de idade. Mas, por mais importantes e válidos que sejam todos esses esforços, eles concentram-se numa única fase da vida das tartarugas, a dos ovos. Será isso suficiente? Claramente não! Num trabalho importante, o Dr. Crouse dos Estados Unidos e seus colaboradores tentaram determinar a fase da vida das tartarugas-bobas em que é mais sensível o efeito de conservação. Por outras palavras, queria-se saber qual o grupo etário mais carente de defesa para que a população voltasse rápidamente a aumentar. Contráriamente ao que se esperava, os ovos não representam a fase mais vulnerável de vida, nem sequer os recém-eclosionados. São os juvenis, o mesmo grupo de idades que frequentam as nossas ilhas. Salvar um juvenil na Madeira ou nos Açores equivale a preservar algumas centenas ou milhares de ovos ou neonatos, dado que estes últimos, por razões naturais, já sofrem uma elevada mortalidade. Daí resulta que Portugal tem um contributo importante a dar na conservação internacional, mesmo sem ter populações nidificantes de tartarugas marinhas. INVESTIGAR MAIS A investigação sobre tartarugas marinhas tem sido quase inexistente em Portugal com a notável excepção de uma única investigadora da Universidade dos Açores, a Prof.ª Helen Martins, que desde 1985 tem colaborado com vários investigadores americanos, entre eles o famoso Dr. Archie Carr, tido como o pai da conservação de tartarugas marinhas e um dos construtores da hipótese sobre o estado pelágico das tartarugas juvenis do Atlântico. Esta hipótese foi largamente baseada em dados fornecidos pela Prof.ª Helen Martins. Desde 1994 têm sido desenvolvidos também esforços pela Universidade da Madeira. Pouco se sabe da biologia e comportamento dos juvenis das nossas águas. Será que as tartarugas só passam pelas nossa ilhas ou as utilizam como ponto de descanço entre os longos trajectos pelo alto mar? A nossa hipótese é realmente esta última. Devido ao chamado efeito de ilha, a sotavento destas, as correntes marinhas acumulam mais alimento. Acreditamos que as tartarugas procuram este alimento, interrompendo a sua migração por algum tempo. Além disso, a sotavento das ilhas, o mar é mais calmo. Aqui as tartarugas podem apanhar sol e descançar. No entanto, nas proximidades insulares são muitos os perigos para as tartarugas jovens. O tráfego marítimo e a pesca são mais intensas e a poluição marinha é omnipresente. As tartarugas emaranham-se nas redes de emalhar, caiem nos anzois e nos palangres e são capturadas nas redes de cerco. Tartaruga que não venha à superfície, morre por afogamento como nós. O número destas capturas acidentais é desconhecido. Os lixos no mar são outro problema grave. São inúmeros os sacos e garrafas de plástico, restos de redes, fitas de empacotamento, balões, baldes e, mesmo, frigoríficos que encontramos a flutuar nas nossas águas . Pelo muito que se sabe, as tartarugas-bobas alimentam-se essencialmente de alforrecas e outros organismos gelatinosos, confundindo os sacos de plástico com os mesmos. Basta um saco de plástico ingerido para obstruir o estômago do animal e condená-lo a uma morte lenta e dolorosa. O enredamento acidental neste lixo é causa de morte certa. Que isso não é um acontecimento ocasional mostram as fotografias tiradas frente ao Funchal. Outras causas de morte não natural são as dragagens e colisões com barcos. A tudo isto sobrepõem-se as causas naturais de morte como a predação por parte de tubarões e espadartes, além de doenças e parasitoses. Uma estratégia de conservação das tartarugas marinhas em Portugal deverá pois seguir duas vertentes. A primeira é a determinação das áreas utilizadas preferencialmente pelas tartarugas, a fim de regulamentar nessas áreas as actividades humanas que possam interferir com as tartarugas. A segunda será a educação ambiental, especialmente nas povoações costeiras, para que a quantidade de lixo no nosso mar possa ser evitado. Somos nós a origem da grande parte desse lixo, como o indicam as campanhas de limpeza das praias. Mais haveria a dizer sobre as tartarugas no mundo e na Madeira. Que são animais marvilhosos com capacidades que só agora começamos a desvendar, especialmente no domínio da orientação num ambiente sem pontos de referência visuais. Que fazem parte da história humana e económica da Madeira, onde eram consumidas e vendidas até à proibição em 1985, pela primeira legislação portuguesa de protecção a um réptil. Mas o que eu gostaria de deixar explicito, é que Portugal pode e deve dar o seu contributo activo para a protecção deste grupo de animais que não se restrigem a um só país ou continente. |
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