O MITO DE ORFEU

Elena Rodriguez

Orfeu é um nome que, certamente, não passará despercebido a muitos dos ouvidos mais atentos, às almas mais sensíveis ou aos espíritos mais curiosos. Actualmente, bastará fazer uma pesquisa na “net” e, surpreendentemente, nos depararemos com um infindável número de “sites” sobre esta personagem pertencente ao imaginário de uma civilização. E que julgamos nós sobrevive ainda no nosso imaginário actual, graças a um precioso legado cultural de que somos herdeiros e, em simultâneo, responsáveis pela sua perpetuação.

O mito de Orfeu cativou, desde cedo, o interesse de poetas, compositores, pintores e escultores que encontraram nele uma inesgotável fonte de inspiração e pressentiram nele uma beleza e um encanto invulgares e, ao mesmo tempo, uma fragilidade dolorosamente partilhada por todos os seres humanos. A sua história foi, de facto, divulgada, recriada e actualizada ao longo de séculos através de várias criações artísticas, quer no domínio das artes plásticas, da música ou da literatura. O encanto e a magia emanados de Orfeu a todos fascinou e arrebatou até aos dias de hoje, em que ainda é recordado com ternura e simpatia.

Na Antiguidade Clássica, no século I a.C., dois poetas da época aúrea da literatura latina – Virgílio e Ovídio - renderam-se à magia do canto de Orfeu e imortalizaram o mito da Descida aos Infernos nas Geórgicas, livro IV e nas Metamorfoses, livros X e XI, respectivamente, com grande mestria, perfeição e requinte literários. Na literatura grega, chegam-nos notícias de Orfeu através da Argonaútica, uma épica da autoria de um poeta alexandrino chamado Apolónio de Rodes.

No âmbito específico da literatura portuguesa, o mito de Orfeu foi também aproveitado como tema literário de grande interesse por vários poetas que o reescreveram e reinterpretaram, o que veio, sem dúvida, enriquecê-lo e reavivá-lo. Aconselhamos, por exemplo, a leitura de alguns poemas de Sophia de Mello Breyner ou de Miguel Torga, a fim de compreender até que ponto o mito serviu para exprimir novos significados extremamente interessantes.

Apesar de tudo, será justo para os nossos leitores que, eventualmente, ainda não conheçam Orfeu e agradável relembrá-lo para aqueles que, de alguma forma, já contactaram com o mito, fazer uma longa viagem até à Trácia (uma região no norte da Grécia) , onde tudo começou. Como objectivo último, e que gostaríamos de ver atingido, esta viagem ao fabuloso imaginário da cultura greco-romana tem a pretensão de ser entusiasmante e, acima de tudo, despertar o vosso interesse pela mitologia clássica e constituir um ponto de partida para futuras investigações de iniciativa pessoal.

Conhecido por muitos como o vate trácio, Orfeu, segundo a versão mais comum, era filho de Calíope (a musa da poesia épica) e Eagro, rei da Trácia , terra do seu nascimento. Habitava perto do monte Olimpo e tocava lira e cítara, um instrumento musical cuja invenção lhe é atribuída. Segundo outros, não terá sido o seu inventor, mas o responsável pelo seu aperfeiçoamento, já que às sete cordas iniciais do instrumento, acrescentou mais duas, perfazendo o total de nove, exactamente quantas eram as musas.

Considerado o poeta, o músico e o cantor por excelência, Orfeu era, porém, especial, visto que possuía um poder extraordinário e sobrenatural: conseguia fascinar, com o seu canto e as suas doces melodias, toda a natureza, que o ouvia extasiada. Na verdade, quando tocava e cantava, juntava um grande número de animais selvagens que, esquecidos da luta e da ferocidade, o escutavam calmos e dóceis. O inimaginável chegava a acontecer quando as próprias pedras se comoviam com o tom plangente do seu canto. Orfeu era, de facto, um sedutor que, simplesmente com as suas melodias, subjugava toda a natureza, gerando, simultaneamente, uma harmonia e uma calma ímpares.

O poeta e a sua música deram, por isso, um contributo fundamental ao êxito das aventuras de Jasão e dos Argonautas, que navegavam em direcção à Cólquida, em busca do Velo de Ouro. Foi, efectivamente, durante uma tempestade, que os poderes surpreendentes do músico se revelaram quando conseguiu, com o som da sua lira, acalmar os tripulantes e as ondas rebeldes. Orfeu conseguiu, do mesmo modo, salvar os Argonautas da sedução e do fascínio do canto das Sereias.

Apesar de todos estes sucessos, é muito mais célebre o mito da Descida aos Infernos, no qual Orfeu mostrou ser um autêntico herói, ou melhor, um corajoso guerreiro que tudo enfrentou por amor à sua esposa Eurídice.

Eurídice era uma ninfa que, certo dia, caminhando tranquilamente pelas margens de um rio, se viu subitamente perseguida por um agricultor chamado Aristeu que a queria violar. Preocupada em escapar ao seu perseguidor, a pobre ninfa não reparou numa serpente escondida nas ervas que a picou e lhe trouxe, instantaneamente, a nefasta morte.

Orfeu ficou destroçado com a morte cruel e prematura da sua jovem esposa e é, sem êxito, que procura suavizar a sua dor e tristeza com o canto. Revoltado com aquele cruel destino e impelido apenas por um amor imenso e genuíno, o poeta resolve empreender uma perigosa descida aos Infernos, a fim de recuperar Eurídice.

A maioria dos mortais não se atrevia a descer ao mundo subterrâneo das sombras, local povoado por horríveis criaturas e onde predominavam os mais penosos castigos e os mais terríveis sofrimentos. Além disso, era totalmente inacessível devido ao seu temível cão de guarda, Cérbero, e à costumada intransigência e desconfiança do velho barqueiro Caronte. Contudo, Orfeu entrou facilmente nas moradas infernais, comovendo, à sua passagem, todos aqueles que o ouviam, sucumbidos ao encanto e à magia do seu canto. São simplesmente indescritíveis os efeitos mágicos da música de Orfeu sobre todo o mundo subterrâneo: os monstros tornaram-se dóceis, os castigados viram-se, por momentos, aliviados das suas eternas penas e todo o sofrimento desapareceu. Apenas um génio criador como Ovídio foi capaz de nos dar uma imagem tão bela e perfeita de uma tal proeza e, por isso, valerá a pena ler as Metamorfoses, livro X. Os próprios deuses infernais, Hades e Perséfone, se deixaram comover pelo canto de Orfeu e cederam, sem hesitação, ao seu pedido de libertar Eurídice. Todavia, uma condição lhe foi imposta: o músico nunca deveria olhar para trás, na direcção da sua esposa, enquanto não abandonasse o mundo das trevas. O sucesso de Orfeu foi, porém, passageiro: chegava já são e salvo com Eurídice à superfície da terra, quando não resistiu ao desejo de olhar para trás, a fim de certificar-se se realmente a esposa o seguia. O pacto foi quebrado e todos os esforços do poeta foram em vão. Tal como prometera Perséfone, Eurídice regressa, definitivamente, ao mundo das sombras, morrendo, assim, pela segunda vez.

Orfeu tenta ainda de novo atravessar o rio que os separa , mas não consegue, desta vez, demover o inflexível barqueiro. O poeta regressa irremediavelmente para junto dos humanos.

Existem várias versões para a morte de Orfeu, mas a mais conhecida é aquela em que o trácio foi morto, com paus e pedras, pelas desprezíveis mulheres da Trácia ou bacantes. Diz-se que estas mulheres o odiavam devido à fidelidade que Orfeu continuava a devotar a Eurídice, ou talvez pelo seu crescente menosprezo pelo sexo feminino. De qualquer forma, após a sua morte, o seu corpo foi mutilado: as bacantes despedaçaram atrozmente o seu cadáver e lançaram os fragmentos ao rio. Conta-se que, como por milagre, ainda se ouvia um eco distante chamando por Eurídice e uma doce melodia à medida que a cabeça e a lira de Orfeu rolavam na corrente do rio. Após um longo percurso, chegaram, finalmente, às praias da ilha de Lesbos, considerada, por esta razão, a terra por excelência da poesia lírica que, de facto, atingiu o seu expoente máximo com a poetisa Safo, no século VII a.C. Os habitantes da ilha prestaram-lhe as honras fúnebres e ergueram-lhe um túmulo. A lira do músico foi, mais tarde, transformada em constelação.

Na versão das Metamorfoses de Ovídio, Orfeu e Eurídice reencontraram-se no Hades e viveram sempre felizes sem medo de se voltarem a separar. As mulheres da Trácia tiveram, porém, um fim bem diferente: Baco, irado com o assassínio do seu colaborador nos seus Mistérios, castigou as bacantes transformando-as em árvores.

O amor de Orfeu era absoluto. Não conhecia fronteiras entre a vida e a morte. Mesmo após a morte, o amor e a poesia conseguiram triunfar. O amor foi a sua única força. Deu-lhe a coragem necessária para fazer o impossível: descer ao Hades e restituir Eurídice à vida. Afinal, o que não se fará por amor? Para o amor não existem obstáculos. Se realmente for grande e verdadeiro, poderá tornar-se tão poderoso ao ponto de conseguir mover montanhas. Em contrapartida, é também um sentimento irracional e, por isso, poderá, muitas vezes, levar à loucura de cometer actos impensados e impulsivos, dos quais nos possamos vir a arrepender. Então, as consequências serão desastrosas e o sofrimento inevitável.

Esta é, cremos nós, uma das mensagens mais importantes que este mito nos transmite e o seu sentido é de tal modo profundo e caracteristicamente humano que, irresistivelmente nos identificaremos, de alguma forma, com Orfeu.

Este mito, ainda que aparentemente simples e demasiado sentimentalista para alguns, continua a possuir uma relação com a nossa realidade. Ainda que a sociedade e as mentalidades estejam em constante transformação e evolução, o que é genuinamente humano e o que realmente importa nunca muda: o amor continua a ser algo ainda não totalmente compreendido e uma força antitética que tanto constrói como destrói.

Bem hajam todos aqueles que, apesar de tudo, nele acreditam!