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NORBERTO ÁVILA, Uma nuvem sobre a cama

António Pimenta
Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa

Habituados que estamos à reescrita de mitos clássicos, tanto gregos como latinos, eis que nos chega, em 1991, uma nova adaptação do Amphitruo de Plauto. Representada em Março, Uma nuvem sobre a cama depressa ganhou valor e notoriedade. Começou por despertar a curiosidade dos clássicos, pois, a princípio, pensava-se que a peça dificilmente traria grandes novidades quanto ao aproveitamento mitológico de Anfitrião. Tema que já tinha sido grandemente explorado por outros autores de expressão portuguesa.

Recordemos alguns desses autores que aproveitaram o mito clássico: Camões com Auto dos Enfatriões; António José da Silva com Anfitrião; Augusto Abelaira com Anfitrião outra vez e, finalmente, Guilherme Figueiredo com Um deus dormiu lá em casa. Embora tenham todos por base Amphitruo, as temáticas tratadas são bem distintas. Assim sendo, no último Anfitrião português, Ávila usa a temática do sexo, por se tratar de uma das maiores obsessões do século XX e por ser um factor bastante relevante já no mito clássico.

Como nos indica o subtítulo, a peça é uma comédia erótica que se encontra dividida em duas partes, possuindo, no seu todo, dez cenas. A primeira parte termina na sexta cena, a segunda parte começa na sétima e termina na décima cena.

A bipartição da comédia justifica-se por dois estados: a Paz e a Guerra. Na primeira parte podemos assistir aos momentos anteriores à guerra e às causas que levaram Anfitrião ao campo de batalha. Na segunda parte, deparamo-nos com a guerra, propriamente dita, e o regresso a casa cheio de entraves hilariantes.

Tal como em Amphitruo, a acção decorre em Tebas. Note-se que, nesta comédia, a espacialidade manteve-se tal qual o original, o que não aconteceu com Auto dos Enfatriões nem com Anfitrião, cujos autores optaram pela espacialidade alfacinha. Quanto aos deuses, mantiveram-se os mesmos, somente, seguindo a onomástica grega (Zeus e Hermes), de acordo com o espaço e a cultura em que o mito decorre.

Estruturada em ring composition, a obra começa e finaliza com Alcmena a fazer as suas cerimónias veneráveis, além disso, também principia e termina com um ambiente de paz, seguindo as tendências do modelo plautino.

Após uma leitura cuidadosa e atenta, facilmente chegaremos a uma conclusão, que permitirá equacionar a criatividade deste novo Anfitrião português. Deste modo, constitui originalidade a duplicidade dos amores, se no modelo podemos ver as relações entre deuses e homens livres, agora vamos poder observar também os encontros amorosos entre escravos (Sósia e Calipsandra); o diálogo do carpinteiro Esfródias, que vai servir uma crítica social e institucional; a “Anunciação” de Hermes; a encenação de Anfitrião; a abertura do saco onde estaria a taça; a supressão de personagens (Blefarão e Náucrates); o uso de anacronismos variados como forma de atingir a comicidade e a aproximação temporal; etc.

Surge ainda como novidade o erotismo das cenas associado a personagens que, apesar de modificadas, manifestam as origens na tragicomédia de Plauto e reflectem a originalidade da criação. Ávila apresenta-nos um Anfitrião que é caracterizado como um anti-herói, simbolizando o versus do Anfitrião criado por Plauto. Perde-se o ideal de virtudes e valores, pois esta comédia não se destina a ser uma encenação de um herói antigo, para quem o Humanismo de um homem culto, a devoção pelos deuses, a afeição pelos familiares e a coragem ao serviço do Estado representavam o ideal romano de vida.

O Anfitrião de Ávila é uma materialização da época em que vivemos. Ora se, por antonomásia, o Anfitrião plautino se tornou em todos aqueles que bem recebem, também o protagonista de Uma nuvem sobre a cama se pode transformar no Sósia de qualquer indivíduo do século XX.

Também Alcmena recebe a marca da temporalidade, pois ela é bastante diferente do paradigma, uma vez que não tem a dignidade da matrona romana retratada por Plauto. É contudo plena de virtuosidade, não escondendo a sua sensualidade, agora, numa relação de oposição com a sua grande religiosidade. Torna-se, assim, uma personagem híbrida, ora casta e fiel ao marido, ora sensual e dada aos prazeres da vida.

Por sua vez, Sósia é, de todas as personagens do autor, a que mais se identifica com o modelo. Continua a ser um grande bêbedo, não deve nada à valentia e é o mesmo bisbilhoteiro da comédia latina.

Já os deuses, numa tentativa de igualarem Anfitrião e Sósia, tornam-se humanos, possuem as suas características, ou melhor, defeitos. Ajudam à teatralidade da peça, em cenas ricas de comicidade que o autor soube adaptar a partir do molde latino, exemplo disso é o conflito entre Hermes / Sósia e o verdadeiro Sósia.

Além disso, Norberto Ávila conseguiu criar o teatro dentro do teatro, na cena em que Anfitrião se disfarça de Zeus, com o objectivo de testar a fidelidade de Alcmena, episódio que demonstra a escolha da estrutura discursiva do autor. Pois na peça predominam os diálogos em detrimento dos grandes monólogos e solilóquios que Plauto fazia encenar.

Para finalizar, poder-se-á dizer que Uma nuvem sobre a cama está longe de esgotar o manancial cómico e representativo do mito de Anfitrião. A peça fica, assim, em aberto, deixando novas possibilidades a descoberto, prontas para serem exploradas pelos novos “fazedores de letras” mitológicas.


Selecção bibliográfica:

PLAUTO, Anfitrião. Tradução e introdução do latim de Carlos Alberto Louro Fonseca, Ed. 70, “Clássicos Gregos e Latinos”, 10, Lisboa, 1993.

BAYET, Jean, Literatura Latina. Editorial Ariel, S. A. Barcelona, 1996, pp. 51-70.

PARATORE, Ettore, História da Literatura Latina. Tradução de Manuel Losa, S. J., Fundação Calouste Gulbenkian, 13ª reimpressão, Lisboa, 1987.

PLAUTUS, Plaute, Comédies I. Les Belles Lettres, Paris.

ÁVILA, Norberto, Uma nuvem sobre a cama. Edições Colibri, 1ª Ed., Lisboa, 1997.