Archive for May, 2006

“Discussão”

Wednesday, May 31st, 2006

Sempre gostei de Mário-Henrique Leiria, um homem do surrealismo português dos anos 40-50, esquecido nas prateleiras da intelectualidade nacional. Hoje, porque assim me apetece, quero partilhar convosco um dos seus textos.

 «Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa».

Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo.

-Eu sou democrático, rugi entre dentes, como resposta. Tenho amigos no exílio, todos democráticos. Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem, ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático. Eras capaz de fazer isso?

- Não sou democrático.

Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não sabia de democracia.

Eu sim, sou democrático, até quis ir à América, que me afirmaram que lá é que é a democracia. Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista! Viram isto?», Discussão, Contos do Gin-Tonic, Mário-Henrique Leiria.

O título do livro nada tem de bebida branca. A dúvida é retirada na página 13 («Gin sem Tónica»), pelo menos na edição da Editorial Estampa, 1973. 

 Lília Bernardes

Congresso sem história

Sunday, May 28th, 2006

Marques Mendes abriu ontem o XI congresso do PSD/Madeira e repetiu o que disse em Oliveira de Azeméis. Única alteração à matriz: os elogios a Alberto João Jardim levados até à exaustão. Quando cheira a exagero, cheira a falta de sinceridade. Lembram-se quando Mendes foi desconvidado, o ano passado, para subir ao Chão da Lagoa, só por que criticou levemente umas declarações de Jardim? Águas passadas. Turvas.

Reeleito líder directamente pelas bases a 23 de Abril, com 92% dos votos, a moção de Jardim, «Consolidar e Desenvolver» (publicada na integra no Jornal da Madeira), retrata a cristalização do partido que, há 30 anos, dirige os destinos da região refém de um só homem. Esta situação deve tirar (deveria) o sono a Jardim.  Basta ver a lista da comissão política e secretariado eleitos. Os mesmos de sempre. Não há renovação nem ideias novas. A própria moção da JSD é um “save us”. Nesta longa metragem só Virgílio Pereira continua  a achar que não faz parte do guião. Mas faz. Por muito que lhe custe e por muitas críticas que faça ao regime. É engraçado mas não tem efeito nenhum. Sai do grupo dos 5 (vice-presidências) sendo substituído por advogado-deputado Coito Pita, conhecido pelos seus actos e intervenções polémicos. O líder aproveitou a moção para falar do «mau» relacionamento com o Governo da República e defender um modelo próprio de desenvolvimento para a região, «obviamente diferente das outras parcelas componentes do território nacional». Esta reivindicação implica a «concretização do Princípio da Unidade Diferenciada, por cuja efectivação o PSD/Madeira se baterá e cada vez com maior denodo», refere.  Será que, neste princípio, estão incluídos os não impedimentos dos deputados regionais?

Para Jardim o contencioso das autonomias está longe de ser encerrado, até que «sejam reconhecidos os Direitos legítimos do parlamento eleito pelo povo madeirense» (?) Quais, se os poderes que têm não os usam?

Num congresso sem história, mais uma vez, se adia o problema da sucessão. Fica a certeza de que Alberto João Jardim está pronto para recanditar-se às eleições legislativas regionais de 2008.

Lília Bernardes 

Adrenalina total no Cabo Girão

Wednesday, May 24th, 2006

Cabo Girao - Madeira

Recentemente Mário Pardo, o único Base Jumper português, lançou-se a grande velocidade, numa moto, do segundo cabo mais alto do Mundo Cabo Girão, Madeira (580m de altura)

A extraordinária proeza foi registada em vídeo:Salto Mario Pardo no Cabo Girao.wmv

Roberto Xavier

A Madeira na “boca do mundo”

Monday, May 22nd, 2006

FT

No passado dia 9 de Maio foi publicado um suplemento sobre a Madeira no Financial Times.
Na minha opinião é um dos melhores artigos da imprensa internacional relativos à Madeira que já li. Esta qualidade deve-se à capacidade ilustrativa e coerência do autor.

O jornalista Peter Wise dá as pinceladas certas, ou seja, aborda questões fulcrais da nossa região, tais como a política, a história, o desenvolvimento que assistimos nos últimos 30 anos, a economia, o turismo, a sociedade e as potencialidades da Madeira no panorama internacional.

Pode até parecer, para alguns, um artigo publicitário, contudo ninguém pode negar que é sempre importante, este território do atlântico, ser alvo de uma grande reportagem por parte de um jornal tão conceituado.

Excerto do suplemento em:

Islanders tune in to the new spirit of the age

Roberto Xavier

Já não querem o Palácio?

Saturday, May 20th, 2006

Andaram o jornalistas a gastar páginas e páginas de jornal, ouvindo uns e outros, cobrindo iniciativas do género «É meu, é teu, é nosso» com criancinhas em círculo junto ao Largo da Restauração, para quase nada. De que serviu aquele final de noite de eleições legislativas com o Dr. Jardim aos gritos dentro de um autocarro pintado de laranja, festejando a vitória de mais uma maioria absoluta frente «ao símbolo dos 500 anos de colonialismo português»? E as palavras do deputado do PSD, Gabriel Drumond, presidente da FAMA, com ameaças ao «rectângulo» descascando de cima para baixo e exigindo a «devolução» do Palácio?

A verdade é que a revisão constitucional de 2004 de nada serviu a não ser a oferta de mão beijado ao senhor Representante da República (que segundo o dr. Jardim continua ministro!) para continuar nas mesmas instalações. Quanto à precedência protocolar em relação ao presidente da Assembleia Legislativa e do Presidente do Governo acho muito bem feito. Merecem.

O dr. Jardim está a perder “qualidades” ou então andou, juntamente com os seus companheiros de estrada, a divertir-se à nossa custa desde aquele dia de Outubro de 1997 em que o juiz-conselheiro Monteiro Diniz aterrou pela primeira vez na Madeira para ocupar o cargo de Ministro da República. Nessa altura, as mesmas vozes que hoje o elogiam, o acarinham, tornando-o “indispensável”, são as mesmas que recusaram recebê-lo no aeroporto e o insultaram com epítetos vários, entre eles «ave de arribação».

No fundo, o juiz-conselheiro deve sentir uma satisfação sem limites.

Nós, também. Rimos. Há coisas que não são para levar a sério. Aliás, a Madeira começa a correr esse risco. É tudo uma grande brincadeira.

Lília Bernardes

Nova estrela da BBC

Thursday, May 18th, 2006

cabbie
A conservadora BBC foi palco, na 2ª feira passada, de uma cena hilariante. Guy Kewney, um especialista informático, foi convidado para comentar em directo a batalha legal entre a Beatles’ Apple Corps e a Apple Computer. Nessa mesma altura, Guy Goma, um taxista oriundo do Congo, estava também na BBC mas para responder a um anúncio de trabalho.
Devido à semelhança dos nomes, o taxista, com dificuldades na língua inglesa, foi levado para estúdio para ser entrevistado, em directo, acerca do assunto informático.
Resultado: a atitude de Goma e a própria situação tornaram um momento único de televisão.

Por favor clique neste link para visualizar o vídeo cabbie.wmv

Mais informações:
http://www.mailonsunday.co.uk/pages/live/articles/news/news.html?in_article_id=386136&in_page_id=1770&in_a_source=&ct=5

Roberto Xavier

Ponto de Vista: usem uma fala mais “analfabética”

Saturday, May 13th, 2006

Comunicar com eficácia implica como se sabe que o destinatário das nossas mensagens as compreendam de forma imediata. Falar claro será em certos casos uma arte, uma competência que se adquire seguindo regras já estudadas mas também por tentativa e erro.  Estas preocupações e cautelas assumem particular relevância em grandes meios de comunicação, caso da rádio e televisão por exemplo. Os auditórios a quem se destinam os diversos programas são diversificados.  Vem isto a propósito de uma opinião que me foi expressa um dia destes em plena baixa da cidade do Funchal. Cruzei-me com um telespectador assíduo da RTP - Madeira onde trabalho que me cumprimentou de forma cordial, diria mesmo simpática.  Disse que ainda bem que me encontrava porque precisava de dizer umas coisas.“Sabe, eu ontem vi a reportagem que vocês fizeram… vi do princípio ao fim”. Especado no meio da rua ainda tinha a mão do meu interlocutor na minha e esperava pelo resto da conversa. A reportagem que ele dizia ter visto era, deduzi, um programa de informação. “ Sabe” – continuou ele, “vi tudo e não percebi a ponta dum corno”. Confesso que me deu uma vontade louca de rir, logo contida porque podia ser mal interpretado. Perguntei: mas isso aconteceu só ontem. E ele, que não, que regra geral era assim.  O telespectador que me dava aquele precioso feed-back, porque me pareceu franco, continuava a olhar para mim, sem palavras por uns instantes. Depois pediu desculpas pela franqueza, pediu-me que não o levasse a mal. E eu, que não senhor, que estava a fazer muito bem…. Ganhou coragem e completou o seu recado, vocês devem falar uma fala mais analfabética. Assim mesmo.  Estava embasbacado. Nunca tinha ouvido tal coisa, mas percebia o sentido. A aflição deste homem que gostava de estar mais informado mas tem dificuldade. Como ele me disse, não nos podemos esquecer que nem toda a gente foi à Universidade ou tem o décimo segundo ano. Já contei o episódio a alguns amigos e colegas. O resultado é sempre uma gargalhada pelo pragmatismo da sentença, deste ponto de vista ou melhor talvez, desta verdadeira análise do discurso mediático. Um riso amarelo porque acho que ele tem razão, embora a solução não seja obviamente usar a dita “fala analfabética” mas orientar-se sempre por preocupações de falar claro e de forma acessível a todos. SEMPRE.   


Roquelino Ornelas

Rangel “dixit”…

Friday, May 12th, 2006

O ex-director-geral da SIC e da RTP Emídio Rangel afirmou ontem que há jornalistas que se “vendem e prostituem na praça pública” e agências de comunicação que “tudo compram”. Na sessão de lançamento do livro do deputado do PS Manuel Maria Carrilho, intitulado “Sob o Signo da Verdade”, coube ao jornalista Emídio Rangel fazer a apresentação da obra com um discurso duro contra alguma comunicação social. Segundo Emídio Rangel, “há agências de comunicação social com jornalistas avençados das formas mais variadas para o serviço sujo, para silenciar e comprar estratégias comunicacionais, para fabricar heróis, construir imagens positivas ou para destruir a imagem de alguém”.“O mau jornalismo tem vindo a impor-se e a ganhar muitas batalhas ao bom jornalismo. No mundo da política, então, assume proporções alarmantes perante a indiferença do Estado, do Governo, da tutela dos jornalistas”, acrescentou. Emídio Rangel afirmou que as agências de comunicação “tudo compram” e que “estes jornalistas que se vendem e se prostituem na praça pública têm de ser banidos dos meios para salvaguarda daqueles que exercem bem a profissão”.“Existe uma canalha que frequenta as televisões, as rádios e os jornais que não respeita nada nem ninguém. Faz notícia, gere informação, opina, interpreta e analisa, não de acordo com as normas jornalísticas, não de acordo com códigos de conduta, mas segundo regras de interesse próprio e ditames de ódios encapuçados na sociedade portuguesa”, acusou (fonte Publico online) 

LFM

São Lourenço

Friday, May 12th, 2006

Considero importante e necessário que na Madeira seja ser criado um Instituto Regional de Estudos Autonómicos, promotor de estudos e de outras iniciativas destinadas à discussão desta temática, no fundo repetindo, não sendo por isso uma inovação, o que se em muitas regiões espanholas e italianas já se passa. Um Instituto que seja, essencialmente, uma referência e que tenha como principal tarefa garantir, não só a institucionalização de uma verdadeira dialéctica autonomista, mas uma permanente passagem de testemunhos entre as sucessivas gerações. Creio, por muito que esta ousadia possa contrariar outras ideias, que o Palácio de São Lourenço, quando formalmente devolvido à Região, seria o espaço ideal para sede desta instituição, chame-se ela o que quiserem.  Por outro lado, fala-se na Autonomia, na exploração dos madeirenses, nos ingleses que nos sugaram, na injustiça social que durante décadas marcou a agricultura madeirense, nas reacções das populações incomodadas com tudo o que se passava com elas, desde o modelo de exploração da terra, às dificuldades da rega, passando pela distribuição dos resultados da actividade agrícola, etc. O Solar do Lugar de Baixo – e a Ponta do Sol foi um exemplo de tudo o que atrás referi – poderia ser um espaço excelente para que estes episódios da nossa história fossem retratados e testemunhados e não “morram” com o tempo, remetidos apenas para uma mera consulta no Elucidário Madeirense ou “sites” na Internet. Há episódios na Autonomia, uns mais do que outros, que naturalmente tiveram um impacto e um significado histórico substancialmente superior a outros. Sobretudo pelo que eles representaram. Acho que temos a obrigação de dar testemunho disso. Perguntem aos jovens estudantes madeirenses, aos jovens madeirenses em geral, o que foi a colonia, o que ela representou de mais primário e de injusto, porque foi uma questão de princípio a sua extinção, porque foi esta uma das mais importantes conquistas da Autonomia madeirense, porque motivo ainda hoje somos vítimas de preconceitos que têm origem nesse período, porque continua a haver gente que continua a ter dificuldade em compreender e aceitar a remição das terras, etc? 


LFM

Fortaleza do Pico

Friday, May 12th, 2006

CASTELO.jpg

Quando a fortaleza do Pico Rádio for devolvida à Região, ali deveria ser erguido, pela localização e pela história do edifício, um verdadeiro Museu da Autonomia, porque é inconcebível que já andem por aí a propor mais pousadas hoteleiras numa terra que já está a abarrotar de hotéis. Afinal, como se pode falar na Autonomia, na mobilização e no esclarecimento dos jovens ou na passagem de testemunhos inter-geracionais, se não temos nenhuma estrutura física que seja um testemunho de 30 anos de História de caminhada autonomista regional, de protagonistas, de avanços e recuos, de conquistas e derrotas, de sucessos ou fracassos, enfim, um espólio de uma História que nos pertence a todos? 


LFM