Archive for April, 2009

História 1

Thursday, April 2nd, 2009

Quando os homens bateram à porta, Joana, 5 anos, enroscou-se nas pernas da avó Luísa. Meteu a cabeça de caracóis louros por baixo das saias largas, quentes, um refúgio seguro naquela hora de enganos. Não percebia o choro dos adultos. Só sabia que o pai chegara cedo a casa. Adoecera de repente. Assim…sem saber porquê. Bebeu água. E deitou-se. A chave do carro foi dada à mãe que chamou o jardineiro da quinta para colocar o carro na garagem. Contaram-lhe isso mais tarde. Mas naquele fim de tarde, quase noite de um inverno de Dezembro, Joana desconhecia os pormenores. Tudo estava certo. Mas aqueles homens vestidos de bata branca obrigavam-se inconscientemente a morder os dedos e a roer as unhas. Era uma ambulância que levava o pai. Dois dias depois do Natal. Os anjos de plástico continuam no presépio serenos como se nada estivesse a acontecer àquela criança e a sagrada família mais o burro e a vaca nem se davam à maçada de olhar para o lado. Os baldes de sangue eram retirados pela mãos da mãe que tremia e chorava.Dizia meu Deus. E rezava pelo João. O seu amor que se esvaia em rios vermelhos lançados das entranhas. A Sofia, mais velha, mais alta dois anos do que Joana, tinha sido resguardada. Dava nas vistas. E acabou por nada ver.Mas Joana, a catraia de olhos redondos, assistiu a tudo. O pai foi-se com um passar de mãos de água benta que a mãe Teresa lhe afagou o rosto pela última vez. De madrugada veio a notícia com vozes baixas na sala e que Joana ouviu porque não dormiu. Um grito. O grito da mãe. A avó entrou no quarto para dizer à Joana e à Sofia que o pai fora levado nessa noite para um lugar muito longe mas que continuava a vê-las.

No presépio, a vaca e o burro, a sagrada família e os anjos continuam estáticos. Joana deixou de rezar.